Esgotaram-se

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Walk_Away_by_Gilraen_Taralom

As palavras
Silenciaram

O coração
Parou de bater

Anestesiada
Da vida
Que nunca houve

Como se estivesse
Esperando
O prenúncio
Do que era sabido
Óbvio
Mas nunca dito

Daquelas coisas
Que todos caminham
Mas que não querem chegar

Das vezes que procurei só
E me salvaram
Da queda

Agora
Não posso salvar
Nem diminuir a dor

Não tenho coragem
Não posso falar

Muito menos
Dizer
Que sei….

Agora a verdade
Do segredo
Que é
Me engole

Agora
O vazio
É nosso

O medo
Nos faz companhia
Na calada da noite

O tempo
Agora
Ele está no comando
E nos dirá
Até quando…

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Por essa ninguém esperava

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porta

Cheguei em casa
Depois de mais um dia
Um longo dia
Um belo dia
Um cheio dia…

Mas cheio de tudo o que eu escolhi
De cada sementinha que eu busquei
Para plantar no meu jardim…

Mas o que ninguém sabe

Hoje…

Eu
Arrumei um tempinho para mim

E falei…

Falei coisas que
Nem eu mesma sabia
Que ainda estavam lá…

Coisas que eu achei
Que estavam no lixo

Mas a pessoa era boa
E me pegou no pulo
Me pegou na ausência
Fez a pergunta certa
Desmontou meu castelo
De ilusões
Que eu mesma construí
Para me esconder e cuidar

Eu tinha me esquecido
E me dei conta
Que esquecer
Se tornou hábito
Para camuflar
O que não pode ser visto

Mas a inteligência
É tão grande…
Que agora
Esquecer é o convite
Para ir lá
E definitivamente
Arrumar a bagunça toda
Que eu mesma fiz
Um dia…

Não posso…

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pecado

Fingi que estava tudo bem
Que eu estava bem
No lugar de sempre
E fiz o que eu sempre fiz
Hoje eu fiz melhor
Nem sabia que havia melhor que isso
E houve
Eu fiz…
Mas do outro lado da porta
No lugar de sempre
A outra me esperava
E me olhava com piedade
Os olhos baixos eram o prenúncio
E me imploravam um lugar
Uma explicação
Me ordenavam…
Neste dia eu me dei conta
Que o limite entre a razão e o sentir
Entre o querer e o não querer
Entre a sanidade e a loucura
Entre te querer e fingir
Esses limites estão ultrapassados
E me dei conta que
Falta apenas mais um passo
Para eu cair na sua loucura
No desafio de sua falta
No que você quer de qualquer um
E agora quer de mim
Não tenho isso
Não posso te oferecer
Não posso cair em tentação
Pois minha queda será o fim
Do pouco que ainda resta
Até hoje…

Amor – II

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oiamor

Você nunca soube
E nunca vai saber

Mas eu um dia pensei que talvez
Das mensagens que você mandava
De “bom dia”

Quando você aparecia do nada
E os olhares se cruzavam
Eu me sentia uma adolescente

E nunca consegui entender
Como é que isso chegou a acontecer

Mas quem disse que precisa ter sentido?

Com o tempo
Acabei me afastando
Reticente
Não sou dessas
Respeito o que há de ser respeitado

Deixei o tempo passar

Mas de alguma maneira
Mesmo que pouco
Considerei alguma possibilidade

E inventei mil desculpas
Para nunca dar certo

Com o passar do tempo
A razão voltou a imperar
E tomar conta do que nunca houve de ser

Com o passar do tempo
Você volta a me procurar

Me pergunto do que se trata tudo isso

Pergunto a Freud, Lacan e seus amigos
Pergunto a minha fé
Me perco nas interpretações

Me contento com a resposta
E já sei que nesta vida
Só haverá de existir
Desejo e ilusão
Tudo no mesmo lugar

Respiro fundo
E me deixo contentar
Para que o coração não morra
Do que nunca poderá ser.

Aquele segredo

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atras da porta

Você me tocou?
Lembro
Que um dia
Atrás de uma porta

Eu não consigo me lembrar
Mas eu sei que alguma coisa
Que mudou tudo
Da infância
Da inocência
Da doçura

Alguma coisa aconteceu
Atrás daquela porta

Foi alguma coisa grave
Que outras pessoas fizeram silenciar
Confundiram as percepções
Disseram que não era nada demais

Era sim
Porque até hoje
Essa coisa toda está no meu corpo
Preenche minha mente
E me paralisa

Me faz chorar dia sim
Dia não
Me faz não fazer
Me faz não ter coragem
E me escondo

Nas roupas
Nas palavras
Na comida
Na vida

Ela foi amarga desde o começo

Como alguém tem coragem?

E desde então a vida acabou.

Como ser normal?

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porta-verde-trancada_434-19316046

Está errado
Faça desse jeito
Não faça assim
Não faça isso
Mas porque você não faz de outra maneira?

E nas tentativas
De sair do quarto
De tentar chegar até a porta da sala
Sair de casa

Até lá
Não se trata só
De uma vida

Se trata de existir
De ocupar um lugar
No mundo

Mas enquanto isso
A porta do quarto fica trancada

E a memória toma conta do corpo
E a memória do abuso preenche
Toma conta do ar
E a respiração fica difícil
A cabeça dói

Melhor dormir
Lá ninguém pode me incomodar
Lá ninguém entra sem eu permitir

Lá é o único lugar
Que eu posso acreditar
Ser dona da minha vida…